Acessibilidade cultural nos 10 pontos turísticos de BH por Cássio Campos

Convidei meu amigo Cássio Campos, Mestre em Artes e Técnico Nível Superior Patrimônio Cultural, para nos falar do ponto de vista de acessibilidade cultural, sobre os 10 pontos turístico de BH que concorreram à ser a Cara de BH,

“Hoje estou aqui, a convite das minhas amigas Tina e Marta pra falar sobre acessibilidade em alguns pontos de nossa cidade, Belo Horizonte, que este ano completa 120 anos. Uma cidade nova, mas que já apresenta desafios para se tornar acessível aos seus moradores. Trabalho há alguns anos com cultura, mais especificamente em museus, e de certo tempo para cá, tenho me dedicado ao tema da acessibilidade cultural, que despertou em mim interesse pessoal, acadêmico e profissional.

Quando falamos em acessibilidade cultural, temos que fazê-lo sob uma perspectiva ampliada, pensado que na verdade, existem vários tipos de acesso que devem ser promovidos, não somente aqueles relacionados à eliminação de barreiras arquitetônicas, mas, sobretudo aqueles relativos a fatores comunicacionais, atitudinais, econômicos e de poder de representatividade e decisão.

Esses acessos beneficiam não somente as pessoas com deficiência, mas tantos públicos que geralmente não usufruem os espaços culturais, e de certa forma, a cidade em si. Esta é a perspectiva que trarei ao comentar os 10 locais escolhidos para serem “a cara de BH”.

Praça do Papa: pra mim, nada mais representativo do que poder contemplar toda a extensão do Belo Horizonte, a amplitude da cidade em uma de suas mais belas vistas. A praça é rodeada de mansões, localizada em um bairro nobre, que pode trazer certo ar de elitismo.  Ao mesmo tempo é a porta de entrada para o Parque das Mangabeiras, um dos locais de grande fluxo de pessoas, de diversas partes da cidade, de diferentes realidades sociais. Pensar em acessibilidade é pensar no convívio harmônico das diferenças.

Praça da Liberdade: historicamente a praça foi idealizada para concentrar os espaços de poder do estado de Minas Gerais, embora no seu cotidiano, sempre foi um dos pontos de encontro preferidos da cidade. Sua conversão em um Circuito Cultural trouxe novas significações para o lugar, sobretudo o museológico. Destaco algumas ações de acessibilidade que acho bastante interessantes. O Centro Cultural Banco do Brasil tem desenvolvido ações de acessibilidade, sobre tudo para a comunidade surda, com visitas e atividades em Libras. O Espaço UFMG do Conhecimento também tem promovido ações direcionadas às pessoas surdas, e o Museu das Minas e Metal Gerdau tem apostado na diversidade ao contratar estagiários transgêneros em sua equipe.

Savassi: estar na cidade é, sobretudo, estar em suas ruas, suas praças, seus bairros. Se deixar levar, sem pressa, sem tempo, divagar, descobrir. Gosto e ando muito pela cidade e a Savassi é um dos meus lugares prediletos, com suas lojas, bares, cafés.  Mas um ato simples, caminhar, pode se tornar um grande desafio para algumas pessoas. Por isso a importância de pensarmos numa cidade acessível, nas nossas calçadas, nas travessias, nos pisos podotáteis, sinais sonoros, no mobiliário urbano. Pensar em trajetos e pontos de paradas acolhedores, confortáveis, que possam ser utilizados pelo maior número de pessoas, independente de suas características e condições.

Parque Municipal: os parques são importantes espaços de convívio social e com a natureza, verdadeiros refúgios verdes na cidade. O Parque Municipal é muito emblemático, devido à sua localização no centro da cidade. Aos fins de semana podemos ver que ele é bastante ocupado e usufruído por pessoas de diferentes grupos sociais. Ele se constitui para muitos um espaço de fácil acesso, com boa localização, gratuito, uma opção de lazer. É importante que a cidade, nos próximos anos que virão, continue a proporcionar estes tipos de espaço tanto na área central quanto nas regionais.

Afonso Pena: penso na Praça Sete, coração da cidade, núcleo arterial no qual pessoas e seus fluxos se encontra e desencontra. Recentemente, a praça e outros pontos da cidade possuem semáforo com dispositivo sonoro que permite que pessoas com deficiência visual atravessem a rua de forma autônoma. Lembro-me de, estando com amigos, ouvir a pergunta “mas que barulhinho é esse”? A informação, o conhecimento, é uma importantíssima ferramenta para a promoção da acessibilidade.

Santa Tereza:  destaco o trabalho super legal desenvolvido pelo educativo do Cine Santa Tereza, um cinema público, com programação gratuita. A equipe desenvolveu dispositivos sonoros e táteis, como reprodução em alto relevo de antigos cartazes de cinema.

Pampulha: um dos mais importantes cartões postais da cidade, recentemente declarado  Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, tem muitos desafios relacionados à acessibilidade física, devido a uma arquitetura pensada em um contexto histórico em que ainda nem se falava sobre acessibilidade. Ora, falar que algo é da humanidade, é dizer que ele é de todas as pessoas. A boa notícia é que Casa do Baile, Museu de Arte da Pampulha e Museu Casa Kubitschek têm, através de seus educativos, realizam ações em prol da inclusão de novos públicos, com visitas sensoriais, dispositivos táteis, sonoros e até gustativos, que oferecem a todos os públicos uma ampliação do processo de percepção.

Mineirão: desde sua reforma, na época da Copa do Mundo do Brasil, pude por diversas vezes ver a grande apropriação da esplanada por pessoas que caminham, andam de skate, patins, bicicleta. Durante muito tempo frequentei o espaço como patinador, e pude encontrar pessoas de todas as tribos, de várias partes da cidade, dividindo um mesmo lugar, respeitando as diferenças. Quando se pensa em acessibilidade ouvimos muito sobre igualdade, mas há que se promover o convívio com as diferenças.

Mercado Central: pra mim o mercado é um dos lugares em que mais se pode ver e vivenciar o que é ser mineiro, o que é ser belo horizontino.  E o fazemos através dos sentidos, dos cheiros, das cores, dos sabores, dos sons, das texturas, do caminhar. Lugar para encontrar e ser encontrado. Percebemos o mundo através dos sentidos, todas as pessoas, e os recursos sensoriais beneficiam todas as pessoas nesse processo.

 

Praça da Estação: na Praça destaco afetuosamente uma presença, a do Museu de Artes e Ofícios, que há muito tempo tem se empenhado em promover a acessibilidade cultural, em visitas sensoriais para pessoas com deficiência visual e auditiva. Com a equipe do Museu, os mediadores e a querida Naila Mourthé, aprendi muito sobre acessibilidade sobre um museu sensível, interessado no outro, no contato, numa acessibilidade que não espera a chegada, mas vai atrás do ausente.”

 

Muito obrigada Cassio, suas informações serão muito úteis para quem se interessa por arte e por um mundo melhor para todxs!!

 

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